Tenho sido jornalista e editora. Pelo meio, lavei muitos pratos e parti outros tantos.
Parte da sociedade não tem sabido lidar com o isolamento, mas para certas sementes esse é o seu terreno. Em Portugal há quem já vivesse longe antes da distância imposta pelo vírus. Não porque a solidão não doa, mas porque a multidão desvia e incomoda mais
Daqui a algumas décadas (ou menos ainda) talvez sejam muito poucos os que ainda saibam ler mapas, orientar-se com um pedaço de papel, decifrar os pontos cardeais. Uma voz computorizada - a do GPS - diz-nos, a cada segundo, se devemos virar à esquerda ou à direita, sem que para isso tenhamos de saber onde estamos.
Pouco se compara a um bom ovo estrelado, aos doces conventuais carregados de gema ou à finura de um ovo poché. Ainda assim, há quem considere que o ovo é pouco valorizado face à qualidade que tem. Neste Dia do Mundial do Ovo, vamos aos bastidores de
Há mais de 30 anos que Duarte Belo anda a cartografar Portugal com os pés. Desta vez, caminhou 530 quilómetros sobre uma diagonal de serras, atravessando o país de Este a Oeste. Mas também o país o atravessou. Da viagem saiu Caminhar Oblíquo, uma ma
Passam dez anos sobre a morte de José Saramago e 40 anos sobre a primeira edição de Levantado do Chão, romance-símbolo do escritor que levantou o pó sobre a fome, miséria, crimes e atrocidades em solo nacional desde o princípio do século XX até à re
Começamos na primeira metade do século XIX. Viajar é pouco frequente e para os privilegiados. Menos provável ainda será encontrar entre os viajantes uma mulher, e de classe média. É por aí que vamos, com Ida Pfeiffer. Depois, o Médio Oriente entra "na moda" e algumas mulheres da época vitoriana encantam-se pelo exótico.
12h55. As pessoas começam a vir à porta para perguntar quando começa. Acima do balcão metalizado, duas inscrições: "Isto não é um bar"; "Isto não é um restaurante". Nunca foi. A associação RDA - Recreativa dos Anjos é um projecto político, autónomo e comunitário que, em tempos de covid-19, decidiu concentrar as actividades no essencial: uma cantina solidária que distribui refeições quentes e gratuitas a quem precisa.
Ricardo e Gisela são arquitectos, fascinados por exposições e pelo digital. Um dia, a tecnologia com que sonhavam apareceu e permitiu juntar os dois mundos num plano de arquitectura imersiva. São eles que fazem as visitas virtuais de instituições co
Há quem continue a tomar a bica ou o cimbalino à porta do café. Mas, desde que nos fechámos, os grãos e o pó castanho vieram para casa connosco, como numa manobra de sobrevivência. Resta saber como extrair o melhor do fruto que nos faz sentir vivos.
Há um certo prazer em acrescentar drama à viagem de barco para a Berlenga Grande, que, a partir de agora, chamaremos, como fazem os seus conhecedores, simplesmente de Berlenga. O faroleiro-chefe, por exemplo, diz ao telefone: "Hoje está bem melhor. As ondas baixaram para os dois metros." Chegou à ilha "encharcado".
Os dias passam-se como numa espécie de Viagem à Volta do Meu Quarto, o livro de Xavier de Maistre em que todas as incursões acontecem naquele espaço fechado, fazendo crer que grandes viagens não implicam grandes deslocações.
"Em 2011 não tínhamos mobília, a maior parte dos laboratórios não estava equipada, havia pó por todo o lado. Os primeiros três anos foram para organizar a casa. Quando o professor Lars [Montelius] veio,
Calça justa, camisa clara, colete negro. O rapaz do rancho caminha curioso em direcção ao parapeito da casa, na Quinta do Melo. Coloca os auscultadores por cima do gorro ribatejano para ouvir o "Escritor na Paisagem", que toca no MP3, e assenta os binóculos no nariz para ver o que se passa ao fundo, no pasto.
Em 1927, dois teares e um moinho davam início a um percurso familiar que haveria de desembocar numa trama de tecidos. Hoje, a quarta maior exportadora de Famalicão testa sistemas de visão artificial, investe em tecnologia para reduzir
Volta ao Algarve de autocaravana Olhos de Água: da vida errante ao resort Na monotonia do Pereiro, os campos mansos e ondulados fazem sonhar com uma vida na autocaravana, pela estrada fora. Mas às portas de Albufeira os turistas escolhem um caravanismo de pulseira, não querem sair dali.
Desde que Bilbau vestiu o seu primeiro Chanel - a capa dourada do Museu Guggenheim -, para poder andar entre a elite, que não havia um projecto com tanto impacto na "cidade dos arquitectos". Mas, desta vez, mais do que turistas, os bilbaínos quere
D. João II podia ter ficado em Vila Viçosa a tocar órgão e a olhar para as suas porcelanas chinesas, mas a 1 de Dezembro de 1640 seguiu o ímpeto da revolução. 378 anos depois da Restauração da Independência, voltamos à terra crescida em volta do Paç
Dean Karnazes veio a Portugal para apresentar o livro A Lenda da Maratona (edição da edlp), a aventura grega em que reencarna Fidípides, o criador da corrida mais épica da História. Mas a lenda é ele, Dean, made in USA, com todo aquele ar de rapaz da praia, dourado pelo sol, mas também com 54 anos de rugas uzbeques e cicatrizes da Tanzânia.
No início, 95% da atividade da Lindo Serviço davam forma aos sonhos da publicidade. Em 17 anos, com a crise e a ascensão do digital, o "grande cliente" tornou-se minoritário. Esta é a história da versatilidade, escrita por uma empresa que cresceu a produzir impossíveis
No último ano, saíram 2.300 toneladas de peças em alumínio da Fundição de Évora. Mais de 80% são as pernas e braços das luzes públicas, um negócio que cresce à boleia dos LED.
Vão para o Alentejo lavrar os campos, para o Douro apanhar fruta, atendem o telefone em call centers de Lisboa ou fazem pão em Setúbal. São a minoria, mas também os que respondem ao "mais complicado" do processo de recolocação de refugiados: a integração
Há 20 anos, o escritor americano Tom Morris saiu-se com esta: e se Aristóteles fosse o administrador da General Motors? A pergunta migrou, em jeito de hipótese, para o título de um dos livros de gestão mais vendidos nos Estados Unidos.
O que a arte pública gera em dinheiro privado é conversa que dá pano para mangas. Mas, no campo do imobiliário, é cada vez mais concreta a valorização de edifícios, apartamentos, estabelecimentos comerciais e, sobretudo, áreas urbanas pela intervenção de artistas internacionais.
Consta que há muitos, muitos anos, em Linheiros de Baixo, vivia um homem muito rico. Tão rico, que chegava a acender a lareira com notas. Mas à medida da sua opulência reinava o desvario, pelo que depressa a fortuna se esgotou.
Na matemática de um mapa, Montenegro é metade do Alentejo, mas um dominó de montanhas e fiordes multiplica-lhe a superfície. O mesmo acontece à identidade. No primeiro Outono na NATO, o Adriático ainda é dos russos, o café é otomano e as sopas eslavas.
Era preciso fotografar os pescadores, porque a cédula profissional passava, naquele mês, a ser obrigatória. Damasceno chamou o irmão, Apolinário, então instalado em Vila Real de Santo António, para o ajudar na tarefa.
Mário não desvia os olhos do telefone. Anda de um lado para o outro, entre as alas da incubadora onde pôs a crescer a sua terceira startup, a Climber, e tem os ponteiros contados para a entrevista. "40 minutos, uma hora", limita. Assim que lhe pedimos para recuar aos tempos de estudante, relata episódios à velocidade da luz.
Haverá sempre maior procura de engenheiros informáticos do que de marceneiros, profissionais do restauro, modistas e ceramistas. Mas, num mercado de ecrãs táteis e tecnologias da informação, ainda haverá quem saiba trabalhar com as mãos?
Olha a selfie barata!" "Pauzinho de selfie?" "Selfie stick?" O pregão não varia muito junto ao Mosteiro dos Jerónimos. Do lenço "típico português" fabricado no Bangladesh, passando por pêssegos paraguaios até cabos extensíveis para o autorretrato, tudo é negócio quando o assunto é turismo.
Daqui a 63 anos, Portugal terá 7,478 milhões de habitantes, 2,8 milhões dos quais idosos, segundo as projeções do Instituto Nacional de Estatística.
A primeira vez que Patrícia Pimenta andou de avião tinha 16 meses, e talvez por uma janela mal fechada o vírus da aviação lhe tenha entrado no corpo. "Sempre viajei muito com os meus pais, eles levaram-me a conhecer novos países e culturas.
Mais do que objetos, os produtos vintage e retro são experiências pelas quais o consumidor está disposto a pagar mais. A EXAME de julho dedica um dossiê ao universo vintage. Já nas bancas.
O Bundestag aprovou este mês uma lei que abre novas condições de integração aos imigrantes "tolerados" no território e uma outra, que aponta a prisão a quem chega à Alemanha vindo de outro Estado-membro ou pelo tráfico do Mediterrâneo. "Pensava que a Europa era um lugar onde estaríamos seguros"
São bem mais do que banana e bolo do caco, do que chá Gorreana e ananás, mas nem sempre as imagens empresariais da Madeira e dos Açores chegam ao exterior no formato ajustado. A inovação no mercado tradicional, o turismo e as tecnologias de informação estão a diversificar as economias insulares.
Os mercados norte-americano e asiático olham cada vez mais para o crowdfunding como um motor de negócios, mas Portugal utiliza-o sobretudo em causas sociais.
Viagens
Nenhuma vida chega para compreender o país que esta semana foi a votos e continua a não fazer sentido 42 anos depois da independência. É na procura dele - e de uma fantasia que descanse de petróleo e diamantes - que as conversas dançam à mesa, ao canto da cigarra.
Istambul é dura, pesada nas pernas, nas mãos, na boca. Faz de nós um saco morto a boiar no Bósforo para que nos levantemos a seguir reclamando que estamos vivos. Somos, então, um saco feito balão, a flutuar nas ruas, entre 20 milhões de gente e as melhores borras de café do mundo.
Há quem defenda que foi preso em Itália, outros dizem que morreu em Fez, mas a imagem de um homem robusto que desaparece entre as folhas do nevoeiro é a história em que todos queremos acreditar.
São horas de caminho à procura de uma cama vaga em Hamburgo. As letras de néon e a carpete gasta a dar as boas-vindas são constantes, os edifícios a encher o olho de design também.
Vamos ler bem isto: caminhos-de-ferro. São de ferro porque resistem a tudo. Ao tempo, ao uso, ao peso das mercadorias e à leveza do turismo, mais ou menos moldados em linhas que aumentam e encolhem como uma lagarta, consoante o movimento e as finanças.
Há coisas que ficaram “daquele tempo”, agora em latas de feijão Compal, em garrafas de cerveja Sagres, nas casas católicas onde o domingo é da família. Mas para lá “daquele tempo” ainda há outro: o do grogue, dos pastéis de milho e das tamareiras.
De saveiros a galeões, passeios em embarcações típicas portuguesas, do Algarve até ao Minho, entre Agosto e Setembro.
Se o Z é um som de ziguezagues, a serra faz-se pelo Zêzere à velocidade do mel e de almofada no sopé. Do Fundão à Gardunha - que foi pedir ao árabe o significado de refúgio -, os lugares são para colher amoras, testar o corpo em águas frias e falar das formas que uma abóbora pode tomar.
Para quem cruza o Baixo Alentejo com o sono das pradarias, Mértola é um solavanco no bocejo. Sobe apertada até ao castelo, virada para o Guadiana. "Já foram do lado de lá do rio, ver a vista? De lá é que é bonito", garante-se sobre a única vila-museu de Portugal.
Imagine-se um mapa de Espanha visto de cima e centenas de carreiros de formigas a convergir para um mesmo ponto. A romaria de El Rocío é isto, mas as formigas usam saltos altos e chapéus, cantam sevilhanas e rezam sobre peitos queimados pelo sol. Este ano, a festa começa a 22 de Maio.
A Suécia está mais perto do céu. Ninguém queria admiti-lo, no avião, mas todos sabiam secretamente que era verdade. Por cima, as asas atravessam o Báltico, as ilhas, as árvores. Em baixo, as sombras fazem-se companhia itinerante, de um sol lateral.
Ninguém dá muito por Helsínquia, a menos cosmopolita capital escandinava, mas ela tem histórias para contar. No Paralelo 60 N, os terrestres passeiam como pinguins, suam juntos e nus na sauna e procuram energia nas lâmpadas de bares excêntricos. No Verão, a roupa tira-se em nome da vitamina D.
Na Estrada Nacional 125, em Conceição de Tavira, há uma placa pequena junto às outras a apontar para a esquerda. Diz "Pensão Agrícola", e porque o nome é bonito, viramos. A ansiedade faz o caminho longo - ela, as alfarrobeiras, os olivais, a dúzia de vacas luzidias, o aroma a figueira, o não vermos ninguém.
Há a Provença 1, dos campos de alfazema, aroma a sabão e vinho impressionista. E há a outra, que num eixo de 80 quilómetros, entre Marselha e Arles, começa por ensinar o francês vindo do rap para mergulhar os olhos na fotografia e os ouvidos no tango.
Competir com Roma, Veneza ou Florença não é para Turim. Estratégias de turismo e autocarros de dois andares com disparos de flash a incendiar o céu? Hum…, também não. Quem quiser a pérola de Piemonte, tem de a viver para crer.
O Inverno dos rijos e o Verão do sol à meia-noite moram aqui. A Estónia é o lugar onde qualquer sonhador se proporia a escrever um romance sofrido, bêbedo de uma melancolia virgem e despida. Ao mesmo tempo, é um país de impossíveis: passeios sobre o mar ao volante de um Lada, casas perdidas na floresta, mil pântanos, mil lagos, mil ilhas.
3500 quilómetros, 156 dias, uma tenda, uma mochila e uma fiel cadela. Lisa Klimek, 20 anos, fez Viena-Salamanca a pé; com cinco euros por dia e muitas perguntas sobre a vida. No final, uma boleia deixou-a no Alentejo. "Não parei tanto em nenhum outro lugar", diz.
No ano em que o euro chega à Letónia, a cidade recebe a faixa de Capital Europeia da Cultura. Europeização? As opiniões dividem-se, tal como a urbe. De um lado, lojas de design, galerias de arte contemporânea e esplanadas a servir brunch e cappuccino; do outro, blocos soviéticos, tascas para beber vodka e um mercado feito em hangares onde antes pousavam zepelins.
Estamos em Telemark, região com nome alienígena mas mais ligação à terra do que muitos lugares do sul. Neste condado norueguês feito de lagos, vales e mar gelado no Inverno, cresce a vinha mais setentrional do planeta: Lerkekåsa. O título é disputado pelos países do Norte com alguma ferocidade, com a Dinamarca, a Suécia e a Lituânia a entrarem frequentemente na competição.
Cultura(s)
Das paredes do Museu Nacional do Cinema, Marcelo Mastroianni observa, tranquilo e a preto e branco, os passeantes de Turim... (Photo by Luca Di Lotti © 2014)
Entrevista
Desporto
Texto: Rute Barbedo Fotos: Celestino Santos Existe investigação em Portugal que congregue a experiência no desporto adaptado com o saber científico relativo às deficiências? A APCAS [Associação de Paralisia Cerebral Almada Seixal] está a fazer um trabalho com a Faculdade de Motricidade Humana [FMH] sobre o atletismo adaptado, com o qual estou a colaborar.
No início, o objectivo era combater o sedentarismo, mas agora que "a corrida já não é uma moda, mas uma forma de estar", os 57 centros do Programa Nacional de Marcha e Corrida estão focados em ensinar a técnica, reforçar músculos e prevenir lesões associadas ao quarto desporto mais praticado no país
Já foram dezenas; hoje são milhares. O trail running ganha novos adeptos e provas todas as semanas, e anda a desbravar a terra para pintar as pernas de lama e sangue arrancado pelas silvas.
Passou de sedentário ao ultra-runner mais completo do mundo. Já venceu a Badwater - 217 km no deserto da Califórnia; foi o melhor atleta não-africano na Maratona das Areias - 250 km no deserto do Sara; e superou os mais de 2 000 metros de altitude no Ultra-Trail de Mont Blanc.
Activismo